Resenhas

Dentro das lamparinas

Terezinha Alvarenga

1980

Ainda dizem que Brasília é uma cidade sem alma. Imaginem se fosse, né, Stela? Você que é daí, que o diga...

A Stela, que está dentro das lamparinas, manda tanta brasa, isto é, calor humano, em seu livro de conto-crônicas, que dá para esquentar qualquer frio que anda por aqui. A moça de Brasília deu mesmo uma guinada de gente com jeito de mineira, quando sobe a Serra do Curral Del Rei, e cata a alma das pessoas no horizonte:

 “A mulher continua rindo, os olhos miúdos são engolidos pela bochechas murchas. Ele tira o resto de gordura das mãos com uma ponta de camisa. Ergue os olhos e vira o rosto. Vê ao longe, embaçada e triste, a Praça dos Três Poderes”.

Em quase todo o livro a Stela está solta, sem medo. Já cortou o cordão umbilical do autor do diz-que-diz. Sentimos uma mineira de cá das bandas do Nordeste. Com raízes e tudo. Veja isto aqui: “Nos bancos enfileirados os corpos sentados com as pernas cruzadas, com as pernas encolhidas. Os rostos que não dizem coisa alguma. Os olhos de todos. Com um brilho sombrio, uma luz sem direção. Nas bocas um riso tosco que mais parece uma careta repetitiva e angustiante.”

Bom, há contos que mais são crônicas e Stela fica com medo de dizer tudo e prende a língua, coisinha pequena. Dentro das lamaparinas tem qualidade em nível definitivo. E Stela não agrediu, não apelou, estreou com classe e fôlego dos que nascem já para transmitirem. Sentimento e sensibilidade giram em cores vivas e cinematográficas. Ela contou, narrou, dialogou e bem, voou alto quase sem rasantes. Para uma estreante, seu livro é muito bom mesmo. Não fica nesta, a bondade da Stela, também ilustrou todos os contos, alguns são realmente próprios de uma pintora, que além de talentosa, é firme.

Stela soube achar um título para cada conto. Assim de estalo e com febre de curiosidade, está curiosa, hem, Stela? fiquei impressionada com a capacidade de encontrar títulos tão fortes e chamativos. Li o livro pelos títulos: “Mato da Lenha”, muito bom conto, e com muita lenha no mato da Stela:

“- Eh, menina, tu também quer se banhar?
- Posso?
- Pula depressa que seu tio já vem”.

E andando pelas lamparinas da Stela, esbarramos com um e outro, mais outro título chamativo: “Pelo Becos Afora”... Mas no beco da Stela tem gente espiando... Seu beco, Stela, ficou muito bem dialogado. Não é novidade, mas é qualidade fazer um conto dialogado. Todinho.

“- Um beijo, Piedade...
- Que beijo qual nada! Me larga, Antônio! Me deixa passar.”

E em Tachos e Gamelas há melados e outros babados na fervura da Stela. De repente a língua da autora solta em poema, Filhos da Chuva, gostoso e molhado:

“Chuva sonhada:
Arrasta pedras e latas
De esperança
Pelas ruas onde cantam
Os filhos desse povo
- pode ser amanhã.”

Jornal Estado de Minas, outubro de 1980

Terezinha Alvarenga é escritora premiada e editora

 
 
 
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