Resenhas

Dentro das lamparinas

Miguel Jorge

1980

Curioso notar o aparecimento de nomes na literatura feita no Brasil. E importante é falar da consciência desses novos escritores, que completam um círculo evolutivo de um trabalho de pesquisa, técnica, observação, estudo.

Stela Maris Rezende é um desses nomes, aparecendo com “Dentro das lamparinas”, (editora Horizonte, Brasília), num momento auspicioso de produção literária, caminhando firme pelo tão usado, mas não desgastado caminho do conto, com olhos bem abertos para os problemas sociais de Brasília e periferia, ou do Brasil, sem correr o risco de ficar ou parar no regional, imprimindo, inteligentemente, o cunho universal e universalizante em seus textos literários.

Os personagens criados por Stela Maris são retirados do comum cotidiano, com o humor do próprio brasileiro frente às suas desgraças. São homens e mulheres facilmente identificáveis pela ruas de Taguatinga ou Brasília. São tipos humanos daqui e dali, que nada desejam além do mínimo necessário para sobreviverem com dignidade: “À frente do cacetete e do revólver Pedro Pinóia vira uma esquina e o carrossel começa a parar, de mansinho, porque acabou uma roda. Outras crianças com bilhetes coloridos nas mãos estão pulando, felizes, aguardando sua vez de brincar”. (Aguardando Sua Vez de Brincar, páginas 33 e 34).

O leitor vai deparar-se com um discurso fluente, correndo muito à vontade, vindo do interior da escritora, com imagens nítidas, diálogos bem estruturados. Nessa mesma ordem de idéias a contista opta pelo conto breve, a narrativa curtíssima, mas densa, construída com os tecidos achados no dia-a-dia. Vejam o exemplo de O Aposentado, páginas 119 a 121:

“Atravesso a avenida, um pouco nervoso, os carros não param, não há sinaleiro nessa maldita avenida, anteontem aconteceu um desastre bárbaro bem perto de onde estou andando agora, com os meus sapatos de mocassim. Já estou próximo ao amontoado de pessoas que se empurram, todos querendo ver alguma coisa, deve ser uma coisa estupenda, uma briga de malandros, uma tragédia, sei lá”.

A linguagem usada por Stela Maris Rezende é simples, direta, às vezes comovente, muitas vezes transparente de poesia. Outras vezes a contista deixa-se perder pelo excesso de realismo, colocando o falar “roceiro” na boca do seu personagem tal qual se ouve por aí, nas regiões carentes de cultura e de outros benefícios materiais. Mas, na maioria das vezes, Stela Maris nos surpreende com a angústia de seu personagem, e então, sua narrativa passa a existir com o clima do monólogo interior, das reflexões da vida e sobre a vida, o relacionamento apressado das grandes cidades, a violência, a falta de solidariedade humana, a disputa pelo sobreviver, marcando também, em outros contos, a cadência descompassada, num ritmo lento, personalizado pelas pessoas que vivem nas cidades-satélites, ou em grupos de casas brotados como cogumelos ao redor das rodovias. Não se pode deixar de mencionar o conto intitulado Pelos Becos Afora, construído inteiramente com diálogos entre Piedade e Antônio. A escritora imprime força, enredo, movimento, coisa difícil para quem está lançando o primeiro livro. Felizmente amadurecido.

Jornal O POPULAR. Goiânia, domingo, 19 de maio de 1980

Miguel Jorge é escritor

 
 
 
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