Resenhas

O Último dia de brincar

Nilma Lacerda

Este segundo livro de Stela Maris Rezende surge maduro. Em sua filiação a uma linhagem regionalista à feição de Guimarães Rosa, a autora costuma levar seus personagens a se posicionarem na vida de um ângulo pouco comum, em que há espaço para uma subjetividade rica e corajosamente defendida.

Permeada pela poesia que flui do cotidiano, a linguagem da autora evidencia a vida como dádiva, abre o espetáculo do mundo à contemplação e fruição do indivíduo. Nomes de pássaros, plantas, frutas, doces, tarefas diárias e brinquedos vão sendo enunciados numa constante recriação de vida, propiciando o enlace profícuo entre estar e agir no mundo para bem construir o ser no mundo, como em Depende dos Sonhos (1991).

Neste volume de pequenos contos, as personagens principais, todas femininas, são decididas, preservam e impõem sua verdade. Em “Feitiço”, Dorinha leva a mãe e a rezadeira a se renderem ao valor da terra que ela guarda com cuidado dentro do armário; em “Parceria”, duas amigas decidem antecipar seus destinos de escritoras, vivendo como aquelas a quem tanto admiram. Deixam de ser Clara e Célia para serem Cecília e Clarice. No conto que dá título ao livro, Mariinha intima a amiga Polidora a decidir se acata ou não a proibição feita pela avó de brincar com ela, filha de uma mulher largada do marido. Mariinha já havia se posicionado anteriormente com essa segurança, ao dizer à mãe que não ia deixar de brincar com a Polidora porque era negra. Pequena obra-prima, esse conto tem nele concentrada a mestria narrativa do volume, enquanto “Uma idéia de amar” enleva o leitor, densa como a voz dos grandes mestres e simples como a convicção dos clássicos, numa lição de metalinguagem literária.

Ambientando as narrativas num espaço provinciano, Stela Maris discute as miudezas da vida, expondo preconceitos e coragens, num texto que suscita no leitor emoção e visão crítica.

Membro de uma linguagem literária habitada pelos grandes regionalistas e poetas como Manuel de Barros e Drummond, cuja voz e reminiscências encontramos nesta obra singular, Stela Maris tem um lugar importante na nossa literatura, e um público cativo entre as crianças e os jovens. Este volume, de ilustração sóbria e de bom gosto acompanhando pictoricamente o texto verbal em seu projeto estético, é uma riqueza para o leitor com habilidade de leitura, permitindo a ele, além dos contos primorosos, o convívio com uma linguagem que sendo característica das “Gerais”, é a expressão de uma alma brasileira que se expõe inteira para o resto do país, na riqueza de suas variantes e experiências.

Site da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, Rio de Janeiro

Nilma Lacerda é doutora em Teoria Literária e escritora premiada

 
 
 
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