Resenhas

Literatura temperada com emoção

Tatiana Belinky

1988

Stela Maris Rezende (atenção para este nome!) acaba de ganhar o Prêmio Nestlé de Literatura Infanto-Juvenil de 1988, e estou com muita vontade de ler esse trabalho, isto porque “descobri” esta autora, ao receber, recentemente, da editora Miguilim, o seu livro O último dia de brincar, Prêmio João-de-Barro, Júri Adulto, de 1986, publicado em 1987. Pelo visto, trata-se de uma nova colecionadora de prêmios, “contista mineira” das melhores, que nasceu em Dores do Indaiá, “candanga” da primeira hora, que mora em Taguatinga, cidade-satélite de Brasília.(...)

O último dia de brincar agarra o leitor desde as primeiras linhas, a começar pela “voz” muito especial, linguagem própria, certo “sotaque”, certa música – coisas que, em suma, respondem pelo nome de “estilo” - coisa pouco comum mesmo entre os bons “contadores de histórias”. E isto ela certamente é: contadora de histórias. Que são quatro, nesse pequeno livro, de apresentação meio inusitada, com o texto impresso em duas colunas em “negrito”, com margens largas e bons espaços brancos, o que facilita a leitura, além de ser agradável aos olhos. Como o são também o projeto gráfico e as ilustrações de Vlad Eugen Poenaru, cujas criativas “gravuras” negras e vazadas, em alto-contraste sobre páginas inteiras em cartolina cinza-claro, fazem estimulante contraponto com as quatro, tão diferentes, histórias.

O último dia de brincar, do título, é o dia em que Mariinha é proibida, pela avó, de brincar com a amiguinha Polidora, por ser esta “filha de mãe largada”. E Mariinha lembra, no seu gostoso “mineirês”, que a mãe dela, Mariinha, também não queria que ela brincasse com Polidora: “Ô Mariinha, eu acho uma coisa estúrdia você andar com a Polidora, porque, coitadinha, ela é tão pretinha...” As duas garotinhas resolvem não obedecer: “Mariinha pensava assim: gente é bicho muito difícil da gente entender, cruz-credo”. A mensagem antipreconceituosa “passa” natural, sem dedo em riste, embutida na história, e é assim que deve ser.

Outra história, “Feitiço”, é sobre uma garotinha e um punhadinho de terra mágica, mas mágica mesmo, só vendo, ou melhor, só lendo. E a outra, “Parceria”, é sobre duas garotas amigas, Célia e Clara, que gostam de ler e de escrever, e que querem formar uma parceria mudando seus nomes para Cecília e Clarice, “paradigmas” que o leitor descobre, porque o texto não diz (mas dá a entender), serem nada menos que a Meireles e a Lispector. Na página 9, toda vazia, só lá em cima, a frase: “Na viagem do coração o sonho é sempre selvagem?” Pergunta que me remeteu direto para o outro livro de Stela Maris Rezende, do qual queria falar, que é: O sonho selvagem ( da ótima coleção Veredas, da editora Moderna).

Livro pequeno, texto de umas 15 páginas, na verdade um conto – mas tão maior por dentro que por fora! Tão rico de sensibilidade, de emoção, de poesia, ao mesmo tempo suave e forte, e dramático, na sua linguagem toda especial, que chega ao ponto do leitor por vezes quase perder o fio da história, envolvido que fica mais pelo “como” do que pelo “que” ela conta... E aí acontece uma coisa boa: a gente tem vontade de reler uma página ou outra, e participar do desenvolvimento, crescimento e revelação do “coração selvagem” no nascer do amor entre dois jovens que no começo se enfrentam, se provocam, se “odeiam” e... mas para que falar do enredo? É preciso ler o livro, para curtir o saboroso “mineirês” da autora, o ritmo da sua narração, o clima, os diálogos, os nomes, e até as palavras – inzonando, fripinhas, lapeavam, embondo, pantasma – essas coisas...

Os dois livros são muito, muito bons – e nem sei por que são classificados como infanto-juvenis ( o que não deixam de ser, mas “também”) – porque são literatura da boa, para qualquer idade.

Jornal da Tarde, São Paulo, 20 de fevereiro de 1988

Tatiana Belinky é escritora e crítica de Literatura

 
 
 
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