Resenhas

Alegria Pura, leve e simples. Mas profundo.

Tatiana Belinky

1988

Mesclando humor e emoção, o livro atrai crianças e adultos.

Meses atrás, comentei aqui um livro muito bonito, ganhador do Prêmio João-de-Barro (de Belo Horizonte), de Literatura Infanto-Juvenil de 1986, mas que só no começo deste ano chegou às minhas mãos: O último dia de brincar, de Stela Maris Rezende. “Prestem atenção a este nome!”, escrevi naquela ocasião, entusiasmada, sentindo o grande talento da jovem professora mineira. E não deu outra: Stela Maris Rezende levantou, entre muitos e bons concorrentes, o prestigioso e importante prêmio da categoria infanto-juvenil da Quarta Bienal Nestlé de Literatura Brasileira, promovida de 4 a 8 deste mês. (...)

Alegria Pura é o título do livro premiado de Stela Maris Rezende (publicado pela Scipione, grande especialista no gênero, que editou todos os livros premiados desta Bienal Nestlé). É um livro de pouco mais de 30 páginas, com algumas singelas ilustrações em preto-e-branco, de Laíse A. Rodrigues, tipos graúdos, margens largas, grandes espaços entre os “capítulos”- se é que este nome se aplica aos breves parágrafos e rápidos diálogos, que chegam a ser quatro por página. Portanto, um texto curto, que uma criança (ou um adolescente, ou um jovenzinho, ou um adulto) lê facilmente em menos de uma hora.

Só que não fica nisso, porque, chegando à última página, volta-se logo para a primeira, a fim de saborear com vagar e deleite tanto a graciosa história quanto a deliciosa linguagem – lindamente elaborada na sua aparente simplicidade – sem esquecer o “pano de fundo” de uma vida interiorana, “antiga”, apesar de encravada nesta época agitada e cosmopolita, que não chegou a atingir as casadoiras mocinhas Liló, Mazé, Isorina, Dileusa e Célida. A primeira linha do livro é – “Alegria malsã?” – e a última é outra pergunta: “Alegria malsã pode virar alegria pura?” Stela Maris Rezende consegue, em uma admirável síntese, transmitir ao leitor a impressão de todo um mundo – tão próximo e tão distante de nós, das grandes cidades – um mundo “parado no tempo, aquele dos nossos avós. São pés de antúrio e cheiro de pamonha, vasinhos de avenca e compotas caseiras, pés de couve ao lado de tanques de lavar roupa, tufos de cravos e doces de laranja azeda”,  - como diz, entre outras coisas bonitas, Laura Sandroni, que sabe das coisas.

Stela Maris Rezende é uma escritora importante, das melhores que temos, nesta difícil área infanto-juvenil. Domina com igual desenvoltura e mestria a temática e o estilo: o que diz e como o diz. E sabe mesclar em boa medida, emoção, humor, observação – ao lado de leveza, simplicidade e profundidade.

Alegria Pura é um livro que é... beleza pura.

Jornal da Tarde, São Paulo, segunda-feira, 08 de agosto de 1988

Tatiana Belinky é escritora e crítica de Literatura

 
 
 
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