Resenhas

Alegria pura 1ª edição

Laura Sandroni

1988

Stela Maris Rezende é, sem dúvida, a grande revelação de autor para o público jovem dos anos oitenta. Ela conquistou um lugar especial na literatura brasileira ao vencer o Concurso João-de-Barro de 1986 com O último dia de brincar e agora confirma o seu talento ao receber o Prêmio Nestlé pelo excelente texto Alegria Pura.

Neste bordado de pequenas intrigas, grandes expectativas e doces vinganças, Stela Maris revela todos os encantos do seu estilo, ao mesmo tempo lúcido e cerebral. A linguagem é muito trabalhada e resgata, limpidamente, o dizer regional, pleno de graça em sua simplicidade e precisão. Em todos os detalhes está presente o Brasil interiorano, antigo, parado no tempo, contemporâneo do país urbano e frenético, mas ainda não contaminado por ele.

As cinco moças que Maurícia visita têm nome delicioso, mas raro para os leitores citadinos: Liló, Mazé, Isorina, Dileusa, Célida. A descrição das casas e dos ambientes faz-nos voltar a um tempo, aquele de nossos avós. São pés de antúrio e cheiro de pamonha, vasinhos de avenca e compotas caseiras, pés de couve ao lado de tanques de lavar roupa, tufos de cravos e doces de laranja azeda.

As metáforas com que Stela Maris descreve as mudanças de comportamento nascem dessa profunda ligação com a terra: “de azeda pra melado”, “o que era suçuarana agora é coelhinha”, “pano de chão pode virar metro e meio de seda?”. A própria trama remete aos vilarejos de onde os rapazes saem logo que a cidade lhes permite para tentar a vida na cidade grande. Cinco moças disputam o mesmo namorado, “difícil um pretendente assim de futuro”, e é com esse trunfo que conta sua irmã Maurícia para uma vingança engraçada e ingênua que aos poucos transforma “a alegria malsã em alegria pura”.

Um texto curto, simples e engraçado que encerra uma visão profunda do ser humano. O mundo interior das meninas-moças aprisionadas em suas vidas sem futuro.

Com esses dados e a marca de uma natureza onipresente, Stela Maris Rezende compõe um vigoroso painel tecido por delicados fios.

In: REZENDE, Stela Maris. Alegria Pura. São Paulo, Scipione, 1988

Laura Sandroni é ensaísta e crítica de Literatura

Alegria Pura ganhou o primeiro lugar da Bienal Nestlé de 1988, categoria infanto-juvenil, e teve como comissão julgadora grandes nomes da Literatura e da Crítica no Brasil: Ruth Rocha, Nelly Novaes Coelho, Laura Sandroni, Vivina de Assis Viana e Maria Clara Machado

 
 
 
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