Resenhas

Uma bruxinha que encanta os jovens

Yara Malheiros

1993

Até hoje ela consegue disfarçar, e bem, quando é preciso. Por isso mesmo, pouca gente sabe que Stela Maris Rezende, além de morena, pequenina, meio zombeteira e dona de uma jovialidade transparente em seus 42 anos, tem uma acentuada queda por bruxiches e feitiçarias.

Menina, gostava de manter todos presos ao seu encantamento.

As magias de Stela, porém, misturam pitadas de palavras com porções de idéias e muitas doses de imaginação. E acabam resultando em histórias deliciosas como as de O espelho da alma, lançado no ano passado, ou as de Sem medo de amar, publicado em 1990 e que vende 6 mil exemplares por mês. Tudo começou há tempos, lá em Dores do Indaiá, cidade do oeste de Minas Gerais onde ela nasceu. Garotinha ainda, seu passatempo predileto era reunir primos e amigos para ouvir histórias compridas e sempre inventadas na hora. “Eu me sentia a própria feiticeira, mantendo todos ali, de olhos curiosos, presos em mim, encantados e loucos pra saber o final. Aí, fazia suspense, provocava, pra manter a atenção por mais tempo”.

Quando está escrevendo, ela pensa na força rebelde dos jovens.

Embora seu livro de estréia, lançado em 1979, tenha se voltado para o público adulto, Stela não ficou satisfeita. Para ela, a mágica é mais prazerosa se feita para os jovens. “Como, porém, ninguém fica velho sem ter sido jovem, acho que escrevo mesmo para todos. Mas é na juventude, na sua porção sonhadora e rebelde, que penso quando estou criando um texto”, diz ela. Para buscar inspiração, Stela se refugia no sótão de sua casa, ou na biblioteca, muito bem arrumadinha, cheia de livros meticulosamente organizados. “O sótão é um lugar misterioso que tem tudo a ver comigo, me inspira”.

De Minas vêm também as expressões saborosas que Stela usa nos livros.

Volta e meia, a escritora retorna à cidade da infância para recuperar energias perdidas e o falar característico do povo da região, que transporta para suas histórias. São expressões típicas, como: “Careço de ir embora”, “Ara, tetéia”, ou “Eu havera de entender”. Muitas vezes, uma dessas expressões, ou simples palavras, desatam o nó da memória e “aos borbotões, de palavra em palavra, a história vai se arrumando quase por si mesma”.

Ela escreve para ser amada, atrair e encantar.

É assim, cercada de seus mistérios, de seus jovens queridos, e meio escondida lá no Planalto Central do país, que Stela Maris vai colecionando prêmios e emocionando um número cada vez maior de leitores, sua alegria maior. Afinal, diz ela, “como falava Mário de Andrade, a gente escreve pra ser amado, pra atrair e encantar. O que o escritor mais deseja é ter leitores, muitos e muitos leitores”.

Revista Nova Escola, ano VIII, número 64, São Paulo, março de 1993

Yara Malheiros é jornalista

 
 
 
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