Resenhas

O Ășltimo dia de brincar

Anna Cristina Rodrigues

2001

Gente é bicho muito difícil da gente entender, cruz-credo. Mas difícil não quer dizer impossível. Talvez por isso passamos a vida inteira tentando entender o fascínio que algumas pessoas sentem por certas coisas, por exemplo, por um saco cheio de terra escondido dentro do guarda-roupa. Mas há outros comportamentos ainda mais difíceis de serem compreendidos: o preconceito, que pode se manifestar contra classe social, raça, religião, nacionalidade e até tamanho do pé ou o fato de ter a mãe largada do marido.

Entender esses comportamentos não é fácil, mas pensar e falar sobre eles é urgente e todos nós, de alguma maneira, tentamos. Alguns, com muita dificuldade; outros, com maestria. E nessa última categoria está Stela Maris Rezende, autora do livro O último dia de brincar. E a arte é tanta... e a maestria é tanta, que o livro não é só uma leitura imperdível como também é obra premiada (Prêmio João-de-Barro-1986). Nas páginas desse livro, o leitor vai conhecer a Dorinha e seu fascínio por um saco cheinho de terra; Sá Natércia e Dona Carmosina, que desistem de compreender a paixão de Dorinha e a acompanham nessa paixão; Mariinha, que não entende o preconceito e se irrita com ele; Polidora, um tifuque de tão pretinha, mas reproduzindo esse comportamento incompreensível.

É só? Não, tem muito mais! Tem a paixão literária de duas meninas: pela Clarice, aquela do coração selvagem, e pela Cecília, aquela da viagem.

Todo esse conteúdo assume no livro forma admirável: uma linguagem fluente, que surpreende, causa estranhamento e atrai. Tudo ao mesmo tempo. É uma linguagem mineira: montanhosa e férrea, assim descrita por Laura Sandroni: A linguagem resgata o falar regional cheio de graça em sua simplicidade, o que poderá ser observado em salas de aula ao recuperar vocábulos em desuso da expressão popular. Pode ser. E certamente é cheia de graça em sua simplicidade interiorana. Mas em desuso? Certamente não. Quase posso ouvir tais vocábulos brotando nas bocas mineiras ainda hoje.

Por tudo isso, O último dia de brincar foi premiado, considerado Altamente Recomendável para Jovens pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, incluído no primoroso acervo do Programa Nacional Biblioteca da Escola, do Ministério da Educação, e selecionado entre os melhores livros para jovens publicados na época.

É preciso dizer mais? Então aí vai: vamos dar aos nossos alunos, tão carentes de arte e poesia, a oportunidade de conhecer a Dorinha, a Célia, a Clara, a Mariinha e a Polidora e ainda suas paixões, alegrias e tristezas. Eles merecem isso!

Jornal de Brasília, quarta-feira, 16 de maio de 2001

Anna Cristina Rodrigues é professora, editora e especialista em Literatura Infanto-Juvenil

 
 
 
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