Resenhas

Segredos da contadeira

Paulo Paniago

2002

Admirar coisas sem nenhuma importância, ter um caderninho sempre à mão, saber ouvir mentira e chuva batendo no telhado, ser insatisfeito, ter a cabeça nas nuvens. Nada disso parece pertencer ao mesmo conjunto, até que se leia Esses livros dentro da gente,  de Stela Maris Rezende. O subtítulo reforça a dica: Uma conversa com o jovem escritor. Há anos, a escritora visita escolas de Brasília para bate-papos com alunos. Inevitavelmente, escuta a pergunta: “Que dica você dá para o aspirante a escritor?” A resposta não é única, como se nota com a leitura do livro.

É um caso de paixão sem remédio com a palavra, que se reflete até mesmo nesses detalhes: a editora se chama Casa da Palavra; a livraria onde será o lançamento hoje em Brasília, Esquina da Palavra. Stela confirma: “O que existe é a paixão, aflição gostosa, agonia saudável”.

“Tem que tomar chá com Cecília e Clarice”, ensina Stela Maris. E também convidar outros autores. O texto passeia sempre pelos úteis conselhos, mas sem esquecer uma certa cadência, a sonoridade poética que as dicas podem ter. “Tem que saber ouvir o motor de poesia do vôo de um beija-flor”, recomenda. “Vê-lo ficar estátua, com as asinhas batendo pausas. E nada de imprudências, vê se deixa o beija-flor fazer o serviço dele”.

Tem algo que Stela não diz, no livro. A respeito de planejamento. Mas a autora de 26 livros nunca começa uma história que saiba aonde vai dar. “Vem uma frase, eu fico brincando com ela, com alguma prosa, e a história se forma”. Herança de uma relação peculiar que Stela Maris teve com os irmãos e primos. Reunia todos em volta dela com a senha: ”- Quem quer ouvir uma história?”. Só então é que, rodeada de auditório, ela enunciava um “era uma vez” mágico, também sem saber que história seria, mas ela vinha, naturalmente. O método dava certo na infância, continua valendo hoje.

Herança que mistura dupla influência: a vó Chiquinha, contadora nata, a tia Marta, a vizinha Marlene, a mãe Célia, “uma grande contadeira de histórias”, por um lado, na infância em Belo Horizonte (embora tenha nascido em Dores do Indaiá); e Guimarães Rosa, por outro, no que ele tem de “mineiridade”. Mas como definir isso, mineiridade? Stela Maris sorri, finge que não sabe, depois começa a dizer: “É assim uma visão de mundo introspectiva, sisuda, mas com muita ternura, ironia, uma certa melancolia”. E ainda: um uso constante de palavras inventadas. Tipo embondo (embondo quer dizer cheio de nove horas, estúrdio significa estranho, pantasma é variante de fantasma, indaqueiro é um inventor de moda. Se não ouvir essas, você ouvirá outras expressões parecidas quando falar com ela). “Todo escritor tem que observar, assuntar, ouvir muito”, completa.

Mineiridade também se traduz num jeito de receber as visitas, num café passado na hora, hospitalidade aconchegante. Um jeito de vestir, discreto e cuidadoso, um sorriso tímido, firme. Outros indícios: ter em casa um quarteto de cães de várias raças. O weimaraner Júpiter, o beagle Téo, o pintcher Bóris e o pequinês Sávio. Ou uma escada no fundo do quintal da casa que não dá para lugar nenhum. Na verdade, dá em pequeno quartinho usado para guardar entulhos de reformas na casa. Uma jabuticabeira de 13 anos de idade que reúna a família para lhe catar os frutos duas vezes por ano também ajuda. Nas outras reuniões de família, os motivos para agregar serão outros.

Entre a velha Olivetti Studio 46, onde nasceram os primeiros livros e mantida no escritório como um troféu, e o computador que permite rapidez nas correções (Stela Maris sabe: escrever é reescrever, e geralmente para cortar palavras), ela se equilibra gentilmente, pronta para dar dicas. “Quem quer escrever, escreve”, diz o texto de Esses livros dentro da gente. “Principalmente, se terminou de ler um livro maravilhoso. Um livro maravilhoso escreve outros livros dentro da gente. É preciso saber ler esses livros dentro da gente”.

CORREIO BRAZILIENSE, Brasília, quarta-feira, 27 de novembro de 2002

Paulo Paniago é mestre em Literatura Brasileira, jornalista e escritor

 
 
 
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