Resenhas

O estético possível na literatura juvenil

Cátia Toledo Mendonça

2003

Suas obras não se caracterizam pelo uso de uma linguagem simplificada, que favoreça a leitura rápida e fácil, sem que faça pensar ou exija muito raciocínio, como são as obras da literatura de massa. Ao contrário, a leitura da obra de Stela Maris Rezende exige atenção, concentração e, às vezes, até mesmo uma olhadinha no dicionário, à procura de uma palavra desconhecida, que nem sempre encontramos.

É que seus textos trazem a marca de um outro mineiro – João Guimarães Rosa – o eco de uma mineirice que não se rende ao eixo Rio-São Paulo, que não se avexa em resgatar o mítico, a religiosidade. O universo mineiro, do interior – principalmente de Dores do Indaiá – é reconstituído. No final da leitura de seus textos, ficamos com o eco das expressões mineiras, com as imagens de rios, grotões, paióis e monjolos, que tomam o leitor.

Seus textos não são endereçados a uma faixa etária determinada: consideram o leitor inteligente. Seus personagens são adolescentes, estão apaixonados, mas este fato não é apenas a moldura para mais um mistério a ser resolvido por um grupo de meninos, que se percebem mais fortes e valentes que os adultos. Quando estão em grupo, os jovens se divertem, namoram, não há o enfrentamento com o adulto, que caracteriza a literatura juvenil desde a década de setenta. (...)

Esse compromisso com a Arte e não com o mercado se afirma ao longo da leitura de sua obra. Outro elemento que comprova essa postura é a presença da religiosidade.

Enquanto as obras que fazem parte dos diversos catálogos das editoras em evidência têm por tema os jargões da modernidade, Stela Maris Rezende resgata a religiosidade, tão mineira, mas também tão na contramão de nossos tempos, quando se escreve para jovens. Sem ser piegas, sem adotar o discurso de magos e bruxos, a autora revive o sentimento de religiosidade, resgata o mítico, do qual todos nós andamos afastados.

Outra constante na obra desta autora é a intertextualidade. O conhecedor da obra de Guimarães Rosa vai encontrar em seus textos várias palavras que foram cunhadas primeiro por esse escritor, o que nos remete diretamente a Grande sertão: veredas  e a Sagarana, além da valorização da cultura popular, dos temas regionais. (...)

O que fica claro é que Stela Maris Rezende não se curva às necessidades do mercado, que determina a facilitação, o uso de um vocabulário simples e atraente para o jovem. Esta autora, ao contrário, parece a cada obra refinar mais e mais o seu trabalho com a escrita, fazendo de seu texto um bordado, a cada nova publicação, mais caprichado.

As semelhanças entre Stela Maris e Guimarães Rosa não se limitam à linguagem, o que já não seria pouco. Assim como seu conterrâneo consagrado, esta autora busca o sertão, a cultura popular, a complexidade das personagens e da construção como características, independentemente das tendências atuais.

Haroldo Bloom lançou recentemente, no Brasil, uma antologia de textos destinados ao público jovem. Em entrevista à Folha de São Paulo, o crítico norte-americano condena a categoria “literatura para criança”, fruto dos séculos XIX e XX, quando teve muita utilidade de algum mérito, mas que “agora é, muitas vezes, a máscara de um emburrecimento que está destruindo a nossa cultura literária”.

Em suas antologias reuniu “prosa e verso para jovens leitores” como uma reação à obra de J.K. Rowling: Harry Potter, que é sucesso mundial e, para ele, é “uma das obras mais mal escritas” das que leu em anos. No entanto, não se pode negar o sucesso de vendas, alavancado por uma expressiva campanha de marketing. Qual o critério utilizado para a compra e leitura dessa obra?

Contos e poemas para crianças extremamente inteligentes de todas as idades traz uma seleção de obras escritas antes da primeira guerra mundial, por autores em torno dos quais há uma unanimidade, como Shakespeare ou Walt Whitman, mas que, a princípio, não foram escritas para crianças.

O que Bloom valoriza na hora de escolher os textos é a qualidade da obra, seu valor estético, não a facilidade. E diz mais: “Acredito que no Brasil seja igual, que vocês tenham fantásticos autores que não são mais lidos, pois as crianças só querem ler Harry Potter”.

Stela Maris é uma autora que poderia e deveria ser muito mais lida do que é. Sua obra, como vimos neste ensaio, tem a marca do estético em todos os aspectos, volta-se para o jovem, mas não o faz de forma mercadológica: volta-se para o lúdico, mas não o transforma em tolice.

A literatura escrita por esta autora também é para crianças inteligentes, sejam elas adolescentes ou, como disse Bloom, “crianças extremamente inteligentes de todas as idades, incluindo eu mesmo como uma criança de 72”.

Se há quem questione a categoria Literatura Infanto-Juvenil, ninguém há de questionar uma outra: a boa. É o que produz Stela Maris Rezende: a boa literatura, de que andamos carentes.

In: Literatura Dos Anos 90. Diversidade Cultural e Recepcional. (org.) Marcella Lopes Guimarães. Curitiba, Juruá, 2003

Cátia Toledo Mendonça é professora de Teoria da Literatura, Literatura Infanto-Juvenil e Literatura Brasileira da PUC/Paraná

 
 
 
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