Resenhas

A mocinha do Mercado Central

Juvenal Bernardes

2011

Meu nome não é mais o mesmo. Eu não sou mais o mesmo. Nada é o mesmo que era há pouco. A Maria foi chegando devagarinho, assim como quem não quer nada, bem mineirinha mesmo, e arrebatou meu coração. Essa Mocinha do Mercado Central me deu uma alegria imensa, uma vontade de dormir e inventar um sonho improvável, daqueles que a gente sabe que pode mudar o rumo. De vez em quando eu olhava pra ela e achava ela meio parecida com o Dom Quixote. E eu que peguei o livro com tantas coisas garantidas, estou agora aqui, com uma espécie de nó na garganta, mas um nó bom, gostoso de sentir, um nó parecido com um pedaço de maçã engolido sem a devida mastigação. Porque sendo mineiro fica mais fácil entender essa mocinha, sabe. Imagina ter passado a vida inteira ouvindo algumas das frases que estão ali, nas páginas, tornadas agora texto literário. Imagina reconhecer os lugares – ah, é tão bom pra um mineiro essas coisas familiares – e as pessoas, a verossimilhança das situações. Eu sou assim. Ou fiquei assim, não sei mais. É meio mágico mesmo. Este livro é daqueles que a gente lê e se apaixona. Eu me apaixonei. Vou mostrar para os meus amigos de Dores do Indaiá e dizer pra eles: "Olha, a Stella é de lá, de Dores". E eles vão fazer assim com a sobrancelha e exclamar "Puxa! Ela é de lá então?" ou então vão pedir o livro emprestado pra ler. E agora, quando eu for ao Mercado Central comprar queijo canastra ou algum badulaque pras minhas palhaçarias, vou lembrar da Maria passeando por lá, vou comer um biscoito de queijo e lembrar dela. Dela e do rapaz de olhos muito negros. Talvez eu até dê uma esticadinha até a praça Raul Soares pra ver se ele vai estar lá, desenhando. Se estiver, vou ficar olhando, assim, meio de longe. Vai ver que o rosto que ele desenha é o meu. Agora vou retomar a leitura das Mil e Uma Noites. Stella, isso tudo que vai aí é uma tentativa de dizer o quanto o livro me arrebatou. Acabei de lê-lo exatamente agora – 22:11 do dia 17/9/11, um sábado quente e seco aqui no Oeste de Minas. Vou levar o livro segunda-feira para a escola – é, eu também sou professor (literatura – tem como ser professor de literatura?) – e vou recomendá-lo muito a meus alunos. Tenho a impressão de que as minhas alunas é que vão se apaixonar mais por ele. Penso que esses meninos precisam entender que eles podem ser maiores que aquilo que os seus nomes dizem. Que é possível sonhar outras vidas, outras possibilidades. Ou, mais simplesmente, que é preciso sonhar. Muito obrigado pelo prazer dessa leitura maravilhosa. Já vou atrás de outros de seus títulos. Quero entrar pro fã-clube também.

In: email de setembro de 2011
Juvenal Bernardes, professor de literatura e contador de histórias

 
 
 
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