Resenhas

A sobrinha do poeta

Vânia Maria Resende

2012

Em A sobrinha do poeta, como nas demais obras de Stella Maris Rezende, as heranças mineiras são convertidas em visão e forma de expressão artística. Entre outras nuanças do livro, a escritora se projeta no narrador e em algumas personagens, como a escritora que lhe oferece a história e a intrigante figura que se esconde atrás dos indícios deixados na sexta estante de uma biblioteca. Assim, ela enreda a intriga em que a literatura tece a si própria como teia e a leitura descortina novo entendimento ao olhar, revelando-se promissora de liberdade e mudança para uma pacata cidade e seus dormentes cidadãos. Criando enigmas, a trama enlaça, em adorável cumplicidade, escritores, poetas, leitores e a professora de linhagem poética.

Confirmo a minha admiração pela singularidade stellar, recorrente nesta história, traduzindo o talento inconfundível da escritora, sempre ardilosa e sutil na armação de enredos, ao enveredar por mistérios, não apenas aqueles que se esclarecem com fatos, mas, sobretudo, os essenciais à condição humana, que escapa a desvendamento e explicação.

A qualidade maior do adensar-se delicado nessa condição resulta do trato laborioso dos efeitos de linguagem com que a autora dribla, pela leveza, o que há de mais complexo, velado em realidades aparentemente pequenas e banais. Ao trazer à luz o mistério em torno dos originais do poeta modernista de Dores do Indaiá, Stella, sem limite de tempo e chão, alarga significações que afinam a beleza da arte e a perplexidade da existência.

In: orelha do livro "A sobrinha do poeta"
Vânia Maria Resende, Doutora em estudos comparados de literaturas de língua portuguesa

 
 
 
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