Resenhas

A menina que luzia

Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB

2013

A primeira namorada, tão alta
que o beijo não a alcançava,
o pescoço não a alcançava,
nem mesmo a voz a alcançava.
Eram quilômetros de silêncio.

Luzia na janela do sobradão.
(Carlos Drummond de Andrade. Orion).


Carlos Drummond de Andrade, no poema “Orion”, utilizou o vocábulo “Luzia” de forma dicotômica. Quem luzia? Seria a estrela da constelação “Orion” ou Luzia era a moça que ficava na janela do sobradão? Luzia é substantivo próprio ou é a 3ª pessoa do singular do imperfeito do verbo luzir? (Atente-se para a irregularidade deste verbo. É defectivo). Continua o “Claro Enigma”.
No romance juvenil de Stella Maris Rezende – “A menina Luzia” (Ed. DCL, 2012), o mesmo vocábulo empregado por Drummond – Luzia/luzia aparece com sentido semelhante. Luzia é nome da protagonista, mas é, também, verbo. Examinemos este pequeno poema inserido no livro:
Em Luzia uma menina.
Tarcísio não vê.
Uma menina.
Rodando, rodando, rodando.
Uma menina que luzia
Tarcísio não vê. (2012, p. 29)

Em outra passagem do livro, a ambiguidade se faz presente, agora, em forma de prosa:
A escuridão do terreiro luzia dentro do coração. Dona Lilina sabia. Só Tarcísio não sabia. (p.40)

O enredo do romance é bem simples – uma mocinha chamada Luzia apaixona-se por um rapaz magricela que atende pelo nome de Tarcísio. A mocinha utiliza múltiplos recursos para ser notada, mas tudo parece ser inútil. Olhares furtivos, visitas frequentes à casa da mãe de Tarcísio (Dona Lilina), nada desperta o interesse do rapaz. Ele só pensa em brincar com o cachorro e conversar bobeira na venda de Mário Coité.
Condizente com a simplicidade da história, Rosinha teceu a capa e as ilustrações das páginas internas do livro com leves desenhos de bordados na cambraia de linho. Para cada página, um traçado diferente. Rendas e bicos se entrelaçam com a própria cambraia feita toda de traços muito delicados. O vocábulo tecer tem sentidos múltiplos, utiliza-se para indicar o ato de escrever, bordar, desenhar. As ilustrações de Rosinha se destacam como um bordado de linhas.
Não faltam, neste livro, referências aos sabores da gostosa culinária mineira – o doce de ambrosia que Luzia aprendeu a fazer com a mãe e as jabuticabas madurinhas colhidas no pé.
Para Peter O´Sagae, crítico literário e especialista em literatura infantil, esta obra de Stella Maris Rezende revela aos jovens leitores “o sabor das descobertas e o tempo de espera que o amor inventa, em uma linguagem brejeira que caracteriza o universo literário da autora. – de uma beleza só, inocência, doce de malícia, às vezes ambrosia.” (Da orelha do livro “A menina Luzia’).
Com Drummond, Stella Maris Rezende aprendeu a olhar para as estrelas e a poetizar. Como a moça do sobradão, com os cotovelos apoiados no peitoril da janela, Luzia fitava a escuridão, via o tempo fugir. No devaneio, repetia baixinho: “Ainda é cedo [...] cedo para dormir ou cedo para sonhar que Tarcísio olhe para ela” (p. 39).
Com Guimarães Rosa, a escritora aprendeu que as palavras têm “canto e plumagem” e Cecília Meireles deu-lhe ainda, esta lição: é preciso reinventar não apenas a vida, mas as palavras.
Se de tudo fica um pouco, como bem disse Drummond, ficou um pouco da beleza desta prosa poética. Saber lidar com as palavras nem sempre é uma luta vã. Stella Maris Rezende guardou as lições dos mestres.


Neide Medeiros Santos é doutora em Estudos Literários – UNESP/Car, leitora votante da FNLIJ e colunista do jornal “Contraponto”.

 
 
 
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