Resenhas

O (a) misterioso (a) leitor (a) da biblioteca

Neide Medeiros Santos – Crítica literária FNLIJ/PB

2013

Talvez mensagens perdidas
de tua alma ainda nos venham
a certa luz de alvoradas.
(Emílio Moura. A Casa).


Stella Maris Rezende é autora do livro “A sobrinha do poeta” (Ed. Globo, 2012), com ilustrações de Soud. Stella Maris é mineira de Dores do Indaiá, cidade natal do poeta Emílio Moura. O ano passado dois livros desta escritora receberam, respectivamente, o prêmio Jabuti na categoria juvenil – “A mocinha do Mercado Central” (1º. lugar) e “A guardiã dos segredos de família” (2º. lugar).
O ilustrador Rogério Soud (Soud) é natural do Rio de Janeiro, radicado em São Paulo, ilustrador de quadrinhos, revistas e livros de literatura infantojuvenil. As ilustrações do livro “A sobrinha do poeta” são em grafite com um leve toque de lilás. Drummond era muito amigo do poeta Emilio Moura e a primeira ilustração do livro retrata os dois amigos sentados, conversando em uma cafeteria.
Dores do Indaiá é uma pequena cidade do centro-oeste de Minas Gerais, fica distante das grandes metrópoles. Belo Horizonte é a mais próxima e está a 255 km. A população é de 15.000 hab. Stella Maris revela uma afeição especial por sua cidade e sempre escreve livros retratando o ambiente de Dores do Indaiá. “A sobrinha do poeta” é mais um livro que tem como cenário a cidade natal da escritora. É cheio de mistérios, inovações linguísticas e modismos mineiros.
A história gira em torno da biblioteca Umbelina Gomes e de um caso inusitado que envolve toda a cidade. A bibliotecária observa que os livros que estão situados na sexta estante da sexta prateleira, junto ao vidro bisotê, vêm sempre com anotações, textos escritos em suas páginas com caneta “ iriscor,” lilás.
Quem será esse misterioso leitor ou leitora? O fato desperta a curiosidade de todos. As mulheres, que antes se ocupavam em assistir novelas, trocar receitas de bolo, fofocar sobre a vida alheia, estão curiosas para saber quem é o fantasma que aparece à noite e escreve nos livros que estão na sexta estante da sexta prateleira.
Inicialmente as suspeitas recaem na professora bibliotecária Leodegária (Gária) Moura, a sobrinha-neta do poeta Emílio Moura. Além do parentesco com o poeta, ela gostava muito de ler, incentivava os alunos a frequentarem a biblioteca, gostava de contar histórias e de ler em voz alta.
Os livros dessa estante especial vinham com “acrescentamentos”. O 3º. capítulo de Dom Casmurro foi acrescentado de mais dez linhas, tudo escrito com caneta “iriscor”. O conto de Clarice Lispector – “Felicidade clandestina” – ganhou um parágrafo inicial. Quando era acusada de ser a autora das anotações nos livros, Leodegária se justificava dizendo que os escritos eram feitos à noite depois que trancava a biblioteca, assim não podia ser ela a autora de tamanha façanha.
E vinham as especulações:
“Olha só como essa moça é ladina.
- Ladina demais da conta!
- Ela escreve e depois pergunta quem será que escreve.
-Sabidência dela...” (2012: p.17).
Um dia a diretora da escola, Dona Terenciana, resolveu acabar com o tal mistério – levou todos os livros da sexta estante que estavam na sexta prateleira e os colocou no quartinho de fundos da sua casa. A criatura “escrevente escrevinhadora escrevedora” ficou em hibernação.
E a história se encaminha para o cotidiano das pessoas. Agora vamos conhecer a vida dos habitantes da cidade, o que fazem, o que conversam, os dramas familiares.
Leodegária (Gária) tinha um namorado – João Francisco, um rapaz estúpido e simplório e a moça resolveu acabar o namoro. Inconformado por ter sido abandonado, o rapaz tenta estuprá-la dentro da própria biblioteca. Para se defender das investidas do ex-namorado, Gária utiliza um instrumento cortante e comete um crime. Depois ficou provado que matou em legítima defesa. No júri, a professora foi absolvida.
Passado algum tempo, os livros que estavam guardados na casa da diretora voltam para a estante que tinha permanecido vazia. Será que o (a) leitor (a) misterioso (a) vai voltar? Garanto que sim. Quem será? Adianto uma coisa – não é Leodegária.
Lembram-se do leve toque lilás das ilustrações? Esta cor violeta está presente na ilustração da capa e em todas as ilustrações internas. A razão para isso? A criatura “escrevente escrevinhadora escrevedora” fazia os acréscimos nos livros com esta cor.
Nas últimas páginas do livro, o leitor se depara com a transcrição integral do poema “A Casa”, do poeta Emílio Moura. Começamos este texto com uma epígrafe do poema “A Casa”, de Emílio Moura e vamos terminar com versos desse mesmo poema:

Passo esponja na cortina
que o tempo célere tece.
[...]
Uma janela invisível
espreita a vida, lá fora.


Neide Medeiros Santos é doutora em Estudos Literários – UNESP/Car, leitora votante da FNLIJ e colunista do jornal “Contraponto”.

 
 
 
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