Resenhas

O que aprender com "As gêmeas da família"

Ronize Aline

2013

O que aprender com As gêmeas da família.
O que faz uma obra ser premiada? Quais os segredos por trás da criação literária que a destacam das demais? Livro que completa a trilogia iniciada com A mocinha do Mercado Central (2011) e seguida por A sobrinha do poeta (2012), As gêmeas da família, de Stella Maris Rezende, já chega com bons antecedentes. O primeiro livro da série venceu o Prêmio Jabuti 2012 na categoria Melhor Livro Juvenil e Jabuti de Livro do Ano de Ficção. Nessa resenha vamos conhecer um pouco mais do volume que encerra a trilogia e aprender com a escrita criativa de Stella.

O livro
Três adolescentes gêmeas vivendo numa pequena cidade mineira nos idos de 1965. Em plena ditadura militar, ali o que desafia a esperada radiância da mocidade é menos o resultado dos desmandos de um governo autoritário e mais o peso da maldição que há anos assombra as gêmeas da família. Além do peso da maldição, as irmãs precisam lidar com o sacrifício que uma promessa feita pela mãe lhes impinge. Sem saber o que mais lhes aborrece, se a maldição ou a promessa, Maria da Caridade, Maria da Fé e Maria da Esperança seguem céticas, sem tomar conhecimento do significado que seus nomes suscitam.
E para não dizer que não há alegria alguma reservada às meninas, há a música. Mais especificamente a música da cantora italiana Rita Pavone, ídolo da juventude da época e único motivo de satisfação na vida das gêmeas. É em torno dessa paixão de fã utilizada como escape de uma realidade tão pouco amistosa que a história se desenrola. Rita vira personagem, e daquelas que entram na história para provocar grandes mudanças. Mudanças que vão tomando conta das três Marias sem que elas se deem conta.
Stella vai desenhando o que, em literatura, é chamado de romance de formação, mas vai além do que se propõe o gênero. À medida que a história se desenrola, vai aprofundando de tal forma as três personagens que podemos quase senti-las ao nosso lado, tocar seu braço e ouvir-lhes a respiração. Já nos apiedamos de seu destino, compartilhamos suas angústias e torcemos por seus quereres. Combinando com a escrita de Stella, o traço de Weberson Santiago traz ilustrações que reforçam a delicadez da história.
Tão iguais e tão diferentes. A pena minuciosa da autora consegue criar a diferença na semelhança. Desgostosas, aborrecidas, muitas vezes insuportáveis. Apesar disso, cada qual traz consigo qualidades que, se escondidas a princípio, vão se revelando à medida que o destino lhes impões novos desafios. E, assim, a pequena cidade de Minas se torna universal, já que ao compor três retratos adolescentes singulares em suas características, Stella está também falando de todos os anseios que permeiam os sonhos juvenis.

Destaque
Mais do que contar uma bela história, Stella conta uma história bem contada. Seu texto é construído de forma a deslizar pela página e inundar-nos na leitura. Mais do que leitores, somos testemunhas que acompanham de perto, muito de perto, os acontecimentos. E o destaque na sua criação literária é o uso de múltiplos e surpreendentes pontos de vista. Narrado em terceira pessoa, o narrador apropria-se de tudo o que está à sua volta e que pode, de alguma forma, contar algo sobre as gêmeas. Dessa forma, o retrato na parede, a máquina de costura, o balcão da venda, o calor daquela tarde... Até o menos imaginável tem algo a acrescentar à história que, tal qual um novelo de lã, vai se desenrolando e por vezes rola para debaixo do sofá esperando ser novamente puxado para fora.
Entre tantas coisas a aprender com As gêmeas da família, fica aqui a dica: experimente contar sua história a partir de um ponto de vista inusitado. Surpreenda seu leitor trazendo uma visão inesperada e diferente da que você apresentaria se usasse um narrador convencional. Você verá quantas possibilidades narrativas esse recurso lhe trará.


Ronize Aline | Postagem: [Resenha] O que aprender com "As gêmeas da família" | 29 de julho de 2013

Disponível no Ronize Aline

 
 
 
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