Resenhas

A sobrinha do poeta

Dag Bandeira

2015

Sempre me perguntei: que texto pode ser considerado boa literatura? Não quis buscar a resposta em compêndios acadêmicos, ou ouvir as vozes de professores, editores ou livreiros. Então formulei meu próprio conceito. Boa literatura é aquela que o personagem não nos abandona. Quem se esquece de: Capitu de Machado; Gregório Fortunato e Alberto Mattos de Rubem Fonseca; Luís Silva e Baleia de Graciliano Ramos; Carlos e Elza de Mário de Andrade; e de Totonhim e Nelo de Antônio Torres? Para citar só alguns.
Pois bem, ontem mesmo, fui às Minas Gerais; senti o cheio de biscoito de queijo e do café fraquinho com leite desnatado que Gária gosta de tomar. Aí, interrompi a viagem e fui até a cozinha para preparar café com leite; não resisti. Como não tinha biscoito de queijo, assei uns pãezinhos, também de queijo, dando-me por muito satisfeita; ara, mas tá. Retomei a leitura e me dispus a escutar o diz-que-diz dos moradores de Dores do Indaiá e até a ouvir a voz do entojo de Dona Terenciana. Vi a soleira das casas, um armarinho desabitado, a tinturaria do Marconi, o armazém de Cleonice. E foi aí que levei um susto: o imbróglio do envenenamento estava sendo comentado.
Mas tudo isso é só um detalhe, para quem se dispôs a falar de boa literatura. O que contou e conta mesmo é o curso de corte e costura que fiz ao ler "A Sobrinha do Poeta”, (Editora Globo, 2012) de Stella Maris Rezende. Não, gente, não estou maluca, ou não estou falando coisa com coisa. “... é curso de escrita mesmo [...] Corte e costura é o que se precisa fazer, no molde com as palavras.”
Com uma riqueza de metalinguagem, Stella aponta para a necessidade de amarmos as palavras, conhecermos seus significados e as usarmos bem. Sem didatismo, o texto ressalta a necessidade de frequentarmos boas bibliotecas, amarmos os livros, os textos, os poetas e, principalmente, nos sentirmos na obrigação de, com nossos atos, fazermos algo em prol da leitura.
É com Leodegária Moura, que Stella Maris nos mostra o caminho de como podemos criar uma comunidade leitora. E aí, volto ao começo do meu texto: Leodegária Moura não sairá mais de perto de mim. Isso é, ou não boa literatura?



Dag Bandeira, escritora, autora de “Visão distorcida”, entre outros

 
 
 
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