Resenhas

Justamente porque sonhávamos

Dag Bandeira

2017

Stella Maris Rezende nos entrega “Justamente porque sonhávamos" (Editora Globo S.A., 2017) numa atmosfera de mistério, aventura, certezas e incertezas sobre certo lugar estúrdio em algum recanto das Minas Gerais. Os personagens, jovens com suas Angústias e Solidão, vivem numa Macondo e estão à procura, não do mar, mas de descobrir e reverter a causa de seu abandono. Transitando por vários pontos de vista, Stella Maris trabalha várias narrativas. Já no início do livro, o plural empregado (“...mas naquela época não imaginávamos que o drama do nosso...”) nos leva a crer que o narrador é um dos personagens da história. Em seguida, ouvimos o narrador onisciente que, muitas vezes, entrega ou deixa sua palavra ser tomada por um personagem que, com propriedade, melhor falará sobre suas questões. A caracterização dos personagens é trabalhada com esmero: Gildinho lesadinho, religioso de carteirinha; Fedorico, com sua boca malcheirosa; as filhas de Maria, desejosas de uma vergonha emocionante; o professor que desaparece; dona Zildete, louca para assistir a teatrama; Seguinte e Glaucia, namorados, e muitos outros. Suzana, Agenor e Crispim formam o triângulo amoroso que instiga os leitores a torcer e querer descobrir quem conquistará o coração da ponta-escurense apaixonada por teatro. Várias referências nos são apontadas: a literária (Virgínia, Drummond e Graciliano), musical (Lupicínio) e histórica (a ditadura e, mais recentemente, a ocupação das escolas pelos alunos) e promovem a curiosidade no leitor, fazendo com que ele se interesse por conhecer melhor a nossa história. Stella Maris, fazendo uso de seu amor pelas palavras, trata de questões que estão presentes no dia a dia dos jovens: a primeira transa, o suicídio, a vontade de não ter filhos, problemas psicológicos, tudo isso com domínio da escrita e da trama. É para ser lido e relido.



Dag Bandeira, escritora

 
 
 
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